domingo, 6 de janeiro de 2019

Trip Peru #2 - Via Del 85 - La Esfinge

Oito dias após desembarcarmos no Peru, em junho de 2018, tiramos nosso primeiro dia de descanso total, em um hostel em Huaraz. A semana anterior foi de escalada/aclimatação nas belas vias esportivas de Hatun Machay (link pro relato), onde passamos frio e sentimos os efeitos da altitude no corpo pela primeira vez.

O parceiro desta empreitada foi o curitibano Otto, companheiro de cordada em outras roubadas semelhantes. Aproveitamos nosso dia de descanso para comer bem, coletar informações e planejar o dia seguinte. A ideia era tentar subir alguma montanha com 5mil metros de altitud
  
e, para aclimatar melhor e chegar com mais fôlego no nosso objetivo principal da trip: La Esfinge (5325m). Como o tempo era curto, seguimos a sugestão de tentar subir o Rima Rima, uma montanha visível da cidade de Huaraz, com pouco mais de 5 mil metros de altitude, que seria factível em um dia. Segundo nosso informante, a caminhada seria de cerca de 5h ida e volta, com um trecho final de escalada fácil. Pegamos as dicas sobre o acesso, e fomos dormir, pra tentar subir o Rima Rima e voltar pro hostel no dia seguinte.

Acordamos cedo e pegamos um taxi, que rodou 20km e nos deixou no ponto da estrada por onde começava a caminhada, a cerca de 4000m. Andamos muito devagar, parando muito e nos sentindo muito cansados, cinco horas depois chegamos a 4900m, ainda faltava muito, e pelo cansaço e pela hora, resolvemos descer dali mesmo. Foram 2h de volta ao ponto de de onde começamos, mais 7km até encontrar uma van, que nos levou de volta à cidade. Não fizemos cume, nem ultrapassamos os 5 mil, que seria bom pra aclimatação, fiamos um pouco preocupados com nosso desempenho aquém do esperado, mas seguimos com nosso objetivo principal.

Rima Rima é a pirâmide preta no primeiro plano


Nossa altitude máxima no Rima Rima

O dia seguinte foi de descanso em Huaraz, fizemos compras e coletamos  informações sobre o transporte até a Esfinge. Dia 14 de junho de 2018 saímos do Hostel Big Mountain e tomamos um ônibus pra cidade de Caraz [7 soles/2h/60km], chegamos às 8h, andamos até o mercado e pegamos um taxi [85 soles/1h30] que nos levou à Laguna Paron, ponto inicial da caminhada. Paga-se uma taxa de entrada de 5 soles, e essa estrada que percorremos de taxi é impressionante, ela sobe por um vale cercado de paredes que facilmente chegam a 1000m de puro granito. A Laguna Parón também impressiona por sua beleza. Começamos a caminhar rumo à Esfinge às 9h40, chegando ao local usado por muitos como acampamento base após 4h de caminhada, ficamos muito felizes, pois esse é o tempo médio estimado pelo Guia de Escalada de Huaraz, afinal não estávamos tão mal assim! Coletamos água, armamos uma barraca que usaríamos caso o bivak (cova protegida do vento a 15min da base da via) estivesse lotado, o que não foi necessário. Mais uma hora de caminhada e chegamos à tal cova, que estava vazia! Levamos os equipamentos pra base da via, e voltamos pra jantar e dormir. Pra essa caminhada fui com o meu Five Ten Guide, tênis que levei na mochila durante a escalada, pois a descida é por um caminho diferente, ele foi uma boa pedida, pois combina conforto/precisão com leveza.


Início da Caminhada

Primeira vista da Esfinge!!

Dia 15 acordamos 4h30 da manhã, após uma noite até que bem agradável, a 4700m de altitude, tomamos um café e antes das 5h30 estávamos na base da via, começamos a escalar pouco antes das 6h, ainda no escuro, com a luz das headlamps. A rota escolhida foi a Via Del 85, a rota "Normal" da montanha, são cerca de 750m de puro granito, graduada em 6a, com crux's de 6c (graduação francesa), que podem ser feitos em A1. Seu cume está a 5.325m em relação ao nível do mar.

Bivaque

 Escalamos com uma corda simples de 80m, e levamos um cordelete de 60m na mochila, apenas pro rapel. Levamos água, tênis, anorak e começamos a escalar vestidos com a pluma e luvas. Optamos por não levar nada para bivak, o que nos deixaria mais rápidos, mas se algo desse errado, estaríamos numa fria. Escalei com a Moccasym, um número maior que meu é, com meias grossas, precisão necessária e conforto pra ficar 1 dia inteiro calçado.

Otto na segunda enfiada

Emendei as duas primeiras enfiadas, relativamente fáceis, não cabem muitas peças nesse trecho, mas existem alguns pitons, inclusive ao longo te toda a primeira metade da via. Otto pegou as próximas duas enfiadas, também em uma tacada só, depois eu emendei até a P6, santa corda de 80m! Outro detalhe técnico que nos permitiu fazer isso foi termos levado 2 jogos de camalots, em vez de 1, como recomendado em muitos relatos de quem escala a via em um dia. Levamos também o #4, que não me arrependo, e claro, os micros.



A sétima enfiada foi do Otto, e pareceu a mais dura e constante da via, e a partir dela, seguimos de uma em uma enfiada, até o Platô das Flores. Este platô é usado como local de bivak pra quem opta por fazer a via em dois dias, ele divide duas partes da via, a primeira, de maior dificuldade, porém bem óbvia quanto à navegação, e a segunda parte, mais fácil, porém com diversas possibilidades de caminhos a seguir. Chegamos ao Platô às 11h15, um bom horário pra um dia de escalada, mas já nos sentíamos super cansados. Lanchamos, bebemos um pouco de água e guiei o lindo diedro depois do platô, daí pra cima fomos nos arrastando, e nos mantendo relativamente bem na navegação. Sò nos perdemos lá pela 15ª enfiada, mas "descobrimos" nosso caminho e, às 17h e 45 minutos, chegamos ao cume! Tiramos algumas fotos que ficaram bem ruins, mas são o registro de um objetivo alcançado com muito planejamento, estudo e acima de tudo, vontade! Nosso primeiro 5 mil, La Esfinge, Cordilleira Blanca, Peru.






Caminhamos pela crista da montanha, por cima dos blocos, rumo à via de rapel, que fica na parte mais baixa da parede, e está sinalizada com totens apenas no ponto de rapel mesmo, então pode caminhar com fé, que ela está lá! São três rapéis ao todo: 60m/30m/60m, praticamente em linha reta, e todos os pontos de ancoragem estão em bom estado. Ao final do terceiro rapel, descer caminhando meio em diagonal pra esquerda, até acessar a moraina, que leva ao ponto de bivak. Terminamos o rapel às 19h e descemos cambaleando pela moraina até a cova, onde chegamos às 20h20, jantamos e dormimos, pra no dia seguinte voltar pra civilização e depois pra casa.

 Cume da Esfinge (5300m)

Aclimatação sem dúvida deixou a desejar, 10 dias foi insuficiente, não chegamos nem perto de escalar com nossa capacidade normal, mas foi como deu pra fazer, respeito aos montanhistas de grandes altitudes, deu pra sentir na pele e nos pulmões o quanto é difícil! Que esse relato sirva de inspiração pra quem quer escalar a Esfinge, ou qualquer montanha por aí! Caso alguém precise de alguma informação específica, não deixe de entrar em contato: cauivc@gmail.com

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Novas Vias em Itatim - BA

Já faz quase 02 anos que estou na Bahia e sigo dando prioridade a escalar em vez de conquistar, são muitas vias novas pra mim, de todos os estilos, então após mais de 10 anos abrindo vias quase sempre em Pernambuco, to meio devagar nesse quesito por aqui, apesar de não faltar opções icríveis de linhas pra abrir.
Mas nem só de escalar vias prontas vive o homem, e vez ou outra acabamos abrindo uma ou outra via. Já postei aqui o relato da conquista da Tudo Passa, no Morro do Enxadão, mas faltou registrar aqui no blog algumas vias que foram abertas nesse meio tempo.

SETOR RUPESTRE

Na base do Morro do Crocodilo existe um bloco de aproximadamente 15m onde o Marcelo (Itatim) e o Emerson (SE) abriram algumas vias fixas, fui com o Marcel em abril de 2017 conhecer as vias e deixamos mais duas opções pro setor: 
- Do Inferno a Paraíso (Vsup) - Quase toda em móvel, exceto por uma chapa no início e parada dupla no topo. É a via mais à esquerda do setor.
- Coisas Laterais (7a) - Fixa, é a via da direita.

Coisas Laterais - Foto: Marcel Gama

JARARACA

Abri com o Marcel e o Vitor Wolmer a continuação reto da "Mulambo Atrevido", que foi nomeada de "Desvio de Função" (8a), pois no dia fomos pro setor trocar algumas chapas podres e acabamos fazendo outra coisa.
Em duas ou três investidas em agosto e setembro de 2017 regrampeamos algumas vias no setor, pois a situação das proteções estava bem feia. Ainda restam muitas vias pra serem regrampeadas, mas as que estão perfeitas pra escalar são as seguintes:
- Desvio de Função (8a)
- Mulambo Atrevido (VIsup)
- Mimi Jando (7a)
- Los Vagabundos (7b)

Chapa substituída

Regrampeando a Los Vagabundos 

Conquistando a Desvio de Função

MORRO DA FONTE

Plutão (5º VIIc E2 D1) 135m

Conquistamos uma interessante via de cume no Morro da Fonte, acredito que seja a mais dura das que vão ao cume. Juan, Marcel e Bruno foram os pareiros das três investidas necessárias pra concluir a via, principalmente devido à furadeira já não mais aguentar fazer muitos furos.
A primeira enfiada é um VIIb fixo, com crux no início (melhor pré-clipar a primeira proteção), passando por um tetinho e seguindo em agarras pequenas até a P1. Depos uma enfiada de V com uma chapa e algumas peças, mais duas enfiadas mistas no positivo até chegar na base da última enfiada: um 7c vertical com lances de oposição e regletes, infelizmente a fenda que proporciona algumas agarras, não aceitava bem as peças, e a enfiada ficou fixa, mas não diminui a beleza da via. 



Cauí na P1 e Marcel na segunda enfiada 

Última enfiada

MORRO DO TALHADO

Mistério da Bateria (4º VIsup E3) 235m

O Talhado possuia apenas uma via de cume, a qual ainda não tive oportunidade de entrar, chamada Seu Vavá, a via tem lances de artificial exigentes e não deve ser repetida em pouas horas, sendo assim resolvemos abrir uma via mais amigável por lá.
Escolhemos uma linha à esquerda das vias do Chiquinho, onde parecia ter uma chaminé. Quando chegamos vimos que a chaminé tinha uma parada dupla no final, então optmos por começar mais pela esquerda, escalando pelas agarras. Batemos alumas chapas, colocamos algumas peças e quando chego à um platô vejo uma chapa, aproveitei e parei nela, depois vi que pertencia à mesma linha da chaminé que vimos na base, felizmente vinhamos também em móvel e não alteramos nada da via existente. Como não viamos nenhuma chapa pra cima, e a bateria já dava sinais de fraquesa, tivemos que seguir sem bater nada até a parada, que puxei pra esquerda pra fugir da linha existente, no final de super certo, e chegamos no primeiro grande platô de mato. Abrimos um caminho pelo mato até encontrar a pedra novamente, e comecei a escalar sabendo que a furadera mal ia fazer mais um furo, consegui subirr por uma canaleta onde couberam duas peças, depois por um diedro onde entraram mais duas ou três peças. No final do diedro fiquei em uma rampa onde comecei um furo com a furadeira e terminei batendo direto na broca.
Na investida seguinte nós subimos mais 30m até o segundo grande platô de mato, por onde caminhamos, dessa vez de tênis, em meio à espinhos e bromélias até chegar na rocha novamente, o últio trecho estava escorrendo água, mas a única parte seca era a linha que tinha cara de ter mais agarras! Conquistamos então a última enfiada, com chapas e duas peças, por volta de VIsup, o crux da via.
Voltamos mais uma vez pra duplicar as paradas e repetir a via ao lado pra ver se realmente não tínhamos interferido, felizmente não, até chegamos a relocar uma chapa da nossa via, pois a pesar de não interferir, estava visível da outra via.






Vermelho: Mistério da Bateria / Amarelo: Por Deus, Não Chape

14: Mistério da Bateria / 13: Por Deus, Não Chape


DEPARTAMENTO

- Bolsa de Valores (VIsup) - Fixa, 30m.

MORRO DO ENXADÃO

Concluí um antigo projeto do Filipe, faltava apenas a parada, visinho à Piratas do Caribe:

- Mão Leve (8a) - Fixa.


terça-feira, 31 de julho de 2018

[Vídeo] 8 Cumes em 1 dia - Itatim/BA

Dia 07 de julho conseguimos por em prática uma ideia que tivemos meses antes: escalar 8 cumes em Itatim, Bahia, todos no mesmo dia! O parceiro dessa empreitada foi o Marcel Gama.

Selecionamos as vias que seriamas mais rápidas em cada pedra, traçamos um roteiro (que foi forçado a mudar por conta da chuva), separamos equipamentos específicos a serem usados em cada uma das vias e escalamos previamente todas elas.

Acordamos às 3h30, tomamos um rápido café da manhã e seguimos pro primeiro objetivo: Morro do Enxadão, onde escolhemos fazer a via O Jardineiro (5º VIIb E2 300m), que não é a via mais fácil da parede, tendo cerca de 5 enfiadas na casa do sétimo grau, porém, por ser bem protegida, ter melhor acesso e ser uma linha reta, acaba sendo mais rápida. Não escalamos toda em livre, como a ideia era ser rápido, costuras eram agarras. Começamos às 4h40 e escalamos toda a via emendando duas enfiadas de 30m, exceto o início e o final, que eram mais fáceis, onde escalamos unindo três enfiadas. Ficamos surpresos ao chegar no cume e ver que eram 6h30 da manhã ainda, e tínhamos subido a via em apenas 1h48min! Levamos uma corda de 66m e 20 costuras, rapelamos pela via.

A chuva nos pegou no rapel da Jardineiro, o que nos fez mudar o roteiro, em vez de ir pro Morro do Talhado, vizinho de onde estávamos, fomos pro Morro da Fonte, distante alguns minutos de carro. Labareda de Fogo (5º VIIa 100m) foi a via escolhida, parede vertical, apostamos que estaria seca e acertamos. Escalamos também de 2 em duas enfiadas e o final em simultâneo. Foram 47 minutos de escalada até o cume. Levamos a corda de 66m, 13 costuras e 3 peças. Rapel pela via.

O tempo não tava perfeito ainda pro lado do Talhado, mas resolvemos ir ver mais de perto, realmente não tava bom, optamos por escalar o Morro do Napoleão sob uma chuva leve, pra não perder a viagem. 02 de Julho (2º IV 100m) foi a via de conquista do Morro do Napoleão, ainda na década de 90, uma escalada fácil, que fizemos de tênis 5.10 e sem corda, subimos e descemos em 30 minutos. 

E o tempo continuava instável, nos impedindo de ir pro Talhado que estava ali ao lado novamente, seguimos então pra Ponta Aguda, o cume mais fora de mão do nosso roteiro, mas que seria a opção de escalada seca pro momento. Subimos pela via recentemente aberta pelo Marcel e pelo Elder: Shaolin do Sertão (3º V E2 200m), via fácil e bem protegida, além de linda! Nos planos iríamos com uma cordinha de 25m pra dar menos arrasto, mas esquecemos e fomos com a de 66m mesmo, além de 20 costuras. Escalamos em uma tacada só do chão ao cume em 25 minutos e descemos pela trilha.

Durante a escalada da Ponta Aguda o sol apareceu, e começamos a reclamar dele em vez de reclamar da chuva. Enfim conseguimos ir pro Talhado. Mistério da Bateria (5º VIsup E3 235m), via que abrimos recentemente com o intuito de ser uma via mais fácil pro dia D, uma vez que a única via de cume do Talhado era um A2 cabuloso. Fácil ficou, mas é uma via exposta, com duas "trilhas" no meio, o que acaba deixando o processo mais lento. Corda de 66m, costuras e 1 jogo de camalots até o #5, arrastamos essa tralha toda morro acima, levamos 1h42min pra escalar e mais uma hora pra rapelar. 

A via estava seca, e o sol pegou! Descemos bem cansados, mas não largamos o osso, paramos na padaria, tomamos uma coca-cola/guaramix que deu um ânimo extra e seguimos pros três últimos cumes que faltavam.

Zé Badim é um Morro ainda pouco conhecido, mas um dos cumes mais bonitos de Itatim, fica atrás do Morro do Crocodilo, e possui um dos acessos mais longos da cidade, míseros 30 minutos que foram cruéis nesse dia. A via de mesmo nome graduada na casa do IV grau, tem 90m e fizemos em 14 minutos, pra descer são dois rapéis com uma corda de 70m dupla (levamos só uma perna e escalamos com ela dobrada).

Voltamos caminhando pelo outro lado do Crocodilo e escalamos a Normal da Agulhinha (3º VI 100m), bela via do André Ilha, não sei se acertamos o início, mas o final não tem como errar. Chegamos ao cume na última luz do dia, depois de 19 minutos de escalada. Desaceleramos, já era noite e não faria diferença correr muito, descemos tranquilos, nos perdemos um pouco na caminhada de volta ao carro e seguimos pra Toca.

Morro da Toca, a clássica Via Expressa, um terceiro com quarto grau de 200m lindo, cheio de agarrões, que fizemos, agora sim, com a corda de 25m, em uma enfiada só, do chão ao cume sem parar, 25min. Encerrando o projeto com sucesso às 20h, quando chegamos ao chão após descer a trilha da Toca.

Foram mais ou menos 16h de atividade, 1300m de escalada mais de 30 enfiadas, cerca de 25 rapéis, muitos km de carro, alguns km a pé, 10 litros de água, e uma semana com dores no corpo depois desse dia.

Foi muito divertido! Adoraria ver mais alguém entrar na brincadeira também!! Itatim é incrível!

Valeu Macel pela parceria de sempre!! Valeu SBI_Outdoor pelos pisantes que garantiram o sucesso da empreitada!!

Segue o vídeo:

sábado, 28 de julho de 2018

[Vídeo] Irmãos Metranca 9b/c- Itatim/BA

Quinta-feira, 26 de julho, feriado em Feira de Santana, fomos pra Itatim tentar a Irmãos Metranca, projeto que já estava na hora de sair! A cadena foi na terceira entrada do dia, oitava no total. Bruno Henrique gravou um vídeo com o tripé, pois também ficou na missão da segurança, não coube tudo na tela, mas ficou registrado:


terça-feira, 17 de julho de 2018

Trip Peru #1 - Hatun Machay

A ideia de ir escalar no Peru surgiu quando ouvimos falar pela primeira vez sobre a Esfinge, uma parede de mais de 700m cujo cume ficava a 5325m de altitude, isso foi em 2014, em El Chaltén. Somente quatro anos depois conseguimos encaixar essa trip nas nossas agendas e lá fomos nós, dia 03 de junho de 2018, rumo à mais uma aventura, a primeira escalada nossa a mais de 3000m. Hatun Machay foi nossa escolha, que mesclou diversão (escalada) com aclimatação para a Esfinge. Nesse texto vou escrever sobre a a viagem, com o maior detalhamento possível, pra ficar como referência pra quem quiser ir pra lá um dia.


Saí de Salvador/BA dia 03/07 e cheguei em Lima, onde encontrei o parceiro de roubadas, Otto. Trocamos um pouco de dinheiro no aeroporto mesmo (Dólar, trazidos do Brasil, por nuevos soles, ou simplesmente soles). Dormimos no Tupac Hostel (95 soles p/2).

Pegamos um Uber (13 soles) até o Terminal Plaza Norte (Rodoviária), de onde pegamos um ônibus da empresa Línea para Huaraz (35 soles / 8h de viagem). Existem diversas empresas que fazem esse trajeto, compramos com antecedência a passagem, mas não seria necessário.

Garchu Comilón 6a+

Chegamos de noite em Huaraz (3000m), que é uma cidade rodeada por montanhas, e uma das principais atividades é o turismo de aventura. É possível encontrar tudo o que precisar por lá, loja de equipamentos, restaurantes bons e baratos, hostels, serviços de guia, etc. Trocamos mais alguns dólares com melhor cotação na rua principal (na data 1 dólar = 3,25 soles), não aceitavam Reais para troca. Compramos comida, gás e jantamos antes de ir pro Hotel Cayesh (64 soles p/2), que reservamos antes também. 

Dia 05/07 pegamos um taxi para Hatun Mahay (4300m), distante 80km da cidade de Huaraz, combinamos a data da volta e depois de muita negociação conseguimos tudo por 160 soles (inicialmente ele pediu 300). Foram 2h de viagem até Hatun, boa parte no asfalto e o final na estrada de terra. O carro para na porta do abrigo, ão precisa caminhar nada, então dá pra levar o "kit conforto" pro camping.

De Ladito 6b

Hatun Machay é um "Bosque de pedras" no meio do nada, um afloramento de rocha vulcânica com um montão de vias esportivas bem protegidas, a mais de 4 mil metros de altitude. Como nosso plano era seguir de lá pra Esfinge (5325m), Hatun foi a escolha para passarmos 7 dias (acabamos ficando apenas 6) sentindo os efeitos da altitude, e nos adaptando a eles. Uma coisa que poderíamos ter feito era ter passado ao menos um dia em Huaraz caminhando, para facilitar a aclimatação, mas a sede de pedra foi maior.

Chegamos por volta das 11h no "abrigo", que na verdade podemos chamar apenas de camping. Faz alguns anos, o abrigo era de um escalador, tinha quarto coletivo, cozinha, banheiros, restaurante e o camping, houve algum desentendimento entre o dono e a comunidade local, o que gerou uma situação surpreendente: o cara ateou fogo no abrigo e saiu arrancando as chapeletas das vias. A estrutura está sendo limpa e tem uma reforma prevista, a ser feita pela administração, que agora está por conta da comunidade local. Em junho de 2018 estava livre apenas a área de camping, uma pequena cozinha e banheiros (duas privadas e um chuveiro frio), o custo é de 10 soles por noite + uma taxa de entrada de 10 soles.




Quanto às chapeletas das vias, já foram em grande parte recolocadas, mas ainda existem muitas vias desequipadas, não chega a impedir ninguém de passar ao menos uma semana por lá escalando vias inéditas todo dia, mas você vai inevitavelmente dar de cara com alguma via desequipada. Vale levar na bagagem algumas chapeletas e porcas para recolocar em algumas vias, de pouco em pouco tudo será recuperado.

No mesmo dia que chegamos já fomos conhecer o setor mais próximo, a 10 minutos de caminhada do abrigo, "Sector Erótico" onde escalamos 4 vias de 5+ a 6a+ (graduação francesa, usada no local), com cerca de 20m cada. Sentimos a diferença que faz 4300m de altitude, tínhamos que escalar devagar, sem movimentos bruscos pra não ficar com muita falta de ar. A noite chegou junto com o frio, antes de dormir veio a dor de cabeça leve, tomei uma aspirina e fui dormir, o frio aumentou (deve ter feito ~0ºC) e a insônia marcou presença nessa primeira noite, que foi a pior da trip. 

Luzzmilla 5+

Acordamos cansados, mas melhores, e depois de um bom café preto brasileiro seguimos pro mesmo setor, onde escalamos algumas vias mais difíceis, dentre elas  "Con El Pelado Todo És", um 6b no croqui, que após a quebra de várias agarras, deve estar por volta de 7a ou 7a+ de crux concentrado. Quase desmaiei de tanta força que fiz pra não cair, mas saiu a cadena à vista, além dessa, escalamos mais três vias técnicas de 6a, 6b e 6c ao lado dela. A segunda noite foi melhor, com mais uma meia no pé e uma garrafa de mijo maior...kkkkkk

Kumbaya 6b

Terceiro dia de escalada resolvemos arriscar conhecer uns setores mais distantes, à esquerda, fomos à Muralla, onde quase todas as vias estão desequipadas (por completo ou no início), conseguimos escalar duas bonitas vias (laçando parabolts ou usando peças móveis): Ios Todos a Tomar por Culo 6a+ e Luzzmilla Need Poronga 5+. Continuamos andando e escalamos mais três vias no próximo setor, acredito que o terceiro setor, chamado "Refujeros", seria o mais interessante, mas nossa energia acabou antes de chegar lá, e como a caminhada de volta foi morro acima, não ficamos muito animados pra voltar lá outro dia.

Chucru Rani 6a+

Quarto dia em Hatum Machay, demos um descanso pros braços e encaramos uma caminhada de aclimatação em um morro perto do abrigo, cujo cume estava a 4750m, o Punta Chonta, é fácil, basta mirar no morro que tem a antena e subir, optamos por subir passando antes em um cume vizinho, mais baixo, e descer pelo pasto. Lá em cima tem uns restos de muralhas incas...levamos 4h pra subir e descer tudo, sentimos cansados, mas conseguimos administrar bem o ritmo. De noite bateu uma dor de cabeça novamente, mais uma aspirina e a noite foi boa.

Eu e Otto na caminhada ao Punta Chonta

Acordei com um pouco de dor de garganta e já tomei um anti inflamatório (mitas drogas, né?) pra não deixar ela piorar, de dia tudo tranquilo novamente, exceto o frio, que congelava a gente quando passava uma nuvem escondendo o sol. Resolvemos ir andando pra direita e escalar só as vias que achássemos bonitas, pois até agora escalávamos tudo que julgávamos ser escalável em uma ou duas entradas. Escalamos dois 6a+ na Placa Verde, La Argentinidad 6b+ e outra em Las Pqueñas, Welcome to Huaraz 6b+ em La Fissura, essa é uma fenda linda em diagonal pra esquerda, infelizmente o conquistador optou por chapeletar ela do início ao fim, como as chapas já estavam lá, nos restou usá-las e reclamar depois (kkkk). Tahogi 6a em El Principe e a lindíssima Picaflor 5+ no setor de mesmo nome. A caminhada de volta foi até triste nesse dia.

Welcome to Huaraz 6b+ fixo ¬¬

10/06, resolvemos que seria nosso último dia em Hatun Machay. A ideia inicial era passar 7 dias lá e seguir pra Esfinge com apenas 1 dia de descanso no meio, mas resolvemos descer antes pra Huaraz, descansar, tentar subir um 5000 em um dia (que foi uma ideia não muito boa, conto no próximo post), descansar mais um dia, para só então ir à Esfinge. Conseguimos uma carona com o David, Chileno que estava trabalhando como refujeiro do abrigo e precisava descer pra comprar comida, mas antes rolou uma escaladinha, claro! Fizemos 4 vias em La Tapia, de 6a a 6b+ e na Placa Verde a lindíssima Tyahoid 6b+ e o 6c à sua esquerda.

Picaflor 5+

Picaflor 5+

Nos últimos dias já sentíamos melhora no desempenho, mas não escalamos nada que não nos fez cansar, um mero 5+ ainda tinha que ser feito com calma e paciência. As noites foram melhorando aos poucos, as dores de cabeça e insônia diminuindo, mas o cansaço, continuava lá.

Carona de volta, me procure na foto.

De volta à Huaraz ficamos hospedados no Hostel Big Mountain (65 soles quarto p/2), hostel mais movimentado, onde funciona também uma agência de turismo de escalada, bom lugar pra pegar betas, boa localização. De lá fomos ao Rima Rima e á Esfinge, mas isso fica pro próximo post.

Apoio: SBI_OUTDOOR e MBUZI

quinta-feira, 29 de março de 2018

Tudo Passa - Nova Via no Enxadão - Itatim/BA

O Morro do Enxadão, localizado em Itatim, Bahia ganhou mais uma via no último final de semana: Tudo Passa (6º VII A1+ E2 D4) 290m. A via segue pelo negativo amarelado, bem destacado, do lado direito da sua face principal. [ALTERAMOS O GRAU GERAL, QUE ESTAVA COMO 5º, PARA 6º,ACREDITAMOS QUE FIQUE MAIS CONDIZENTE ASSIM]


No primeiro dia do ano de 2018 fui sozinho até a base da pedra e vi perfeitamente que havia uma linha de fenda cortando o negativo ao meio. Como o primeiro 1/3 da parede era positivo, comecei a coquista na hora, em solitário. Nesse dia abri as três primeiras enfiadas, com proteção fixa apenas nas paradas (exceto por 2 chapas em uma barriga mais lisa na terceira enfiada), o resto em móvel, por pequenas fissuras isoladas ao long da via.

Vista da P1 paa a base, na primeira investida, ainda em solitário

Meses se passaram e o Zé Roberto, amigo de Brasília, comentou que estava vindo pra Bahia e chamou pra escalar, mostrei as fotos da conquista e ele pilhou na hora! Chegamos em Itatim na última sexta-feira, pra darmos as investidas finais.

Sábado escalamos as três enfiadas já conquistadas e continuei a 4ª, que começa em uma pequena chaminé, depois passa por uns buracos, em móvel, até chegar em um diedro cego, com agarras quebradiças, bati algumas chapas, depois mais umas peças e fixei a P4 num mini-platô.

Zé pegou a ponta, e seguiu por uma fenda fina no diedro, depois por uma linda e exigente fenda de meio corpo, peças grandes, mais duas chapas e a P5, logo abaixo da parte mais negativa da via, em um platô de um pé só.

Zé na chaminé de meio corpo da quinta enfiada

Coloquei a sapatilha e comecei a escalar a fenda, mas na segunda peça já vi que não ia rolar em livre...peguei os estribos e segui em artificial por mais uns 10m, ótima fenda, até que começou um zum zum zum.

Algumas abelhas saiam de dentro da fenda, continuei de mansinho, bem lentamente, mas elas não queriam me deixar passar, se aproximando cada vez mais. Já era um pouco tarde e resolvemos descer, pra voltar no dia seguinte com um baygon, e ver no que dava, afinal, a fenda seguia por mais uns 10m ainda. Fixei três peças boas e descemos, deixando todo o trecho até ali encordado.

No meio da sexta enfiada, Zé na P5.

Domingo subimos com mais uma corda pra fixar, e lá fui eu tentar conversar mais uma vez com minhas amiguinhas, mas elas estavam mais atiçadas, coloquei mais duas peças e tomei uma picada, elas ficaram mais nervosas e me mandaram descer. Infelizmente as abelhas não gostam de proteção móvel em seu lar, o que me fez ter que pegar a furadeira e fazer uma sequencia de artificial logo à dieita da fenda, por onde elas me deiaram em paz. Onde a fenda termina, dá pra ver as marcas do que foi uma antiga caixa de abelha. A parede fica mais negativa e bati alguns furos de cliff pra render mais, até chegar na parada. Então ficou uma enfiada menos charmosa do que poderia ter ficado, mas ainda assim, bm divertida!

Zé Jumareando a sexta enfiada

A P6 ficou bem aérea, é preciso fixar uma corda no trecho inicial da sexta enfiada, para rapelar pela via, ou rapelar direto pra P4, com duas cordas (ver betas no croqui). Demorei bastante nessa enfiada, e só deu tempo do Zé dar início à próxima, batendo 4 chapas num lance que provavelmente será na casa do VII, mas não conseguimos ainda visualizar a parte superior da parede, que tinhamos dúvida se iria apresentar ou não grandes dificuldades. 

Início da sétima enfiada

Descemos com essa dúvida na cabeça. O dia seguinte era o último dia que tínhamo disponível, se a parede continuasse difícil provavelmente não terminaríamos a via, e teríamos que subir tudo de novo, sem cordas fixas, pra poder voltar a conquistar.

Segunda-feira começamos mais cedo e jumareamos até a P6, Zé pegou a ponta e continuou a conquista, ele fez a transição dos estribos pra escalada em livre, e gritou a notícia de que a parede nos daria uma trégua. Fixou a P7 na base de uma chaminé. Peguei a ponta e entrei na chaminé, um passeio, cheio de agarras! Coloquei uma chapa e algumas peças e cheguei perto de onde seria a parada, mas quando gritei pra perguntar quantos metros de corda faltavam, aquele zum zum zum...esperei, observei, esperei a chuva passar, esperei secar e vi que dava pra passar mais pela esquerda, fugindo de onde pareciam estar as abelhas. Deu certo, bati uma chapa onde ficou sendo a P8 e continuei com mais algumas peça até a P9, que já deu o gostinho do sucesso! 

Nona enfiada, já no positivo

Puxei o Zé e ele se atracou com as bromélias, passou por um boulder e chegou no cume, finalmente! Tomamos um banho de chuva rápido, à propósito, todos os dias foram chuvosos, mas a negatividade da parede não nos deixou molhar nenhuma vez! Descemos, limpando as cordas fixas, os equipos que deixamos pela parede.

Cume!

Descendo...

O resultado foi uma via relativamente exigente, a mais exigente dessa parede, pois requer diversas técnicas como escalada em fenda, em agarras, em móvel, artificial, apicultura, etc. porém, a graduação é moderada para todos os estilos exigidos, enfim, uma boa opção pra quem quer passar um dia cheio na parede.



O acesso é simples, uma vez na base do Enxadão, caminhe para direita, margeando a pedra, até encontrar uma cerca, a via começa logo após a cerca.

A via fica poucas horas do dia no sol, então dá pra entrar bem cedo sem medo de insolação. As proteções fixa que usamos são predominantemente chapeletas PinGo (inox), inclusive em todas as paradas, e algumas chapeletas de aço carbono.



Valeu Zé pela parceria!! SBI Outdoor, Fiveten BR e Mbuzi Outdoor pelo apoio de sempre!