terça-feira, 17 de março de 2015

Carnaval em Cocalzinho de Goiás

Depois de um mês de fortes caminhadas intercaladas com períodos de engorda, o destino final das férias deste ano foi Cocalzinho de Goiás, um dos melhores locais pra fazer boulder do Brasil. A cidade de Cocalzinho fica a cerca de 120 km de Brasília/DF e a mesma distância de Goiânia/GO.
Foi lá onde fiz minhas primeiras escaladas, na ocasião, nas vias esportivas da região.

 Morro do Cabeludo - Proibido Escalar =(

Eveline e eu chegamos na cidade comemos um prato de arroz, feijão e bife, com uma abobrinha incrível enquanto os goianos não chegavam.
Primeiro dia de escalada, já não era mais dia, escalamos na Ecovila noite adentro, só espanco!! Tentei sem sucesso o Fevereiro (V8) e o Profeta (V7), Eveline deu uma malhada no V2 da arestinha e ficou no quase!

 Morro do Macaco - Permitido Escalar =)

No segundo dia fomos com o Vitor e a Lud pro Morro do Macaco, uma falésia de quartzito incrível, com muitas vias, de todos os graus. Esse dia foi mais amigável pra nós, entrei na Língua de Fora, caí no início, mas fui até o crux da segunda parte pra ver, depois entrei novamente, consegui fazer a primeira parte sem cair e entrei no crux do 9b(?), caí, mas deu pra ver que apesar de duro, não é impossível, quem sabe na próxima...
Depois entrei na Via do Boneco, um 8b lindíssimo, que eu larguei na última agarra no flash!! Burro!! hahahahaha
E pra acabar, Invasão Ávila,  o 7a mais difícil que já escalei, mas esse saiu!
Eveline não caiu na "Não cai não" (VI) e fez uma tentativa na primeira parte da Gigante, só guardando energia pro dia seguinte! =)


 Língua de Fora

Início da Gigante 

Terceiro dia, de volta aos boulders, mais espanco, claro, só que dessa vez rolaram algumas cadenas pra aumentar a moral! Começamos pelo setor do Mocó, e Eveline pela Fendinha SDS (V1), depois Invertidinha (V1), e eu tomei um couro do invertidão, V6 de um movimento. 
Seguimos pro setor Cinematográfico. Eveline começou no "Esqueceram de mim" (V1), depois mandou o Garfield (V0), pra então passear no "É grande, mas não é dois" (V1, High Ball), fechando com o Planeta dos Macacos (V2) e o Carga Pesada (V0) à vista! Para mim rolou o Scoobydoo (V5/6), As Panteras (V4), Robin (V5), Cajú (V2), além do carga pesada e planeta dos macacos também. Na volta ainda passamos pelo Mocó e Eveline tentou o mãos ao alto, e eu fiz uma fendinha divertida ao lado dele.

 Fendinha

 Invertidinha

 É Grande mas não é Dois

 É Grande mas não é Dois

 É Grande mas não é Dois

 As Panteras

 As Panteras

Planeta dos Macacos

O dia seguinte seria de escalada nos três picos, com vias esportivas bem legais, mas a chuva nos mandou embora, e voltamos pra Brasília, depois Recife, pra fechar o carnaval "vibe morrrr"! 
Valeu demais galera!!!!!!! Não tem foto de todos, de ninguém na verdade, faltou essa, vamos terq ue voltar em breve! 




terça-feira, 10 de março de 2015

El Mocho - Chaltén 2015

ESCALADAS PELA CIDADE

Após a volta pra cidade, tiramos dois dias de descanso total, só levantávamos pra fazer necessidades básicas. No terceiro dia já procuramos dar uma escaladinha na cidade, fomos ao setor da Burbuja, logo ali, do outro lado do rio. Escalamos umas três vias esportivas, sem nome nem grau, coisa que não existe catalogada por ali, e voltamos pro camping, pois tava ventando um pouco e fazia frio.

No dia seguinte fomos dar uma escaladinha no ginásio da cidade, mas descobrimos que estava fechado pra reforma, fomos então no locutório (onde usávamos wifi) e vimos que ia abrir uma janelinha nos próximos dias, mas ia ter precipitação na noite anterior, o que nos deixou um pouco desanimados, pois iríamos tentar uma via que seria mais dura, e escalar assim no molhado não nos animava muito. 
Resolvemos esperar a próxima janela, que já vinha aparecendo no fim da previsão e parecia bem boa!

O dia seguinte amanheceu lindo, e como resolvemos ficar pela cidade, fomos dar uma caminhadinha até o calamar, setor de esportivas que fica a 7km da cidade, andando pela estrada. Entramos em algumas vias de 6b até 7c, regletera, pinças, divertido, mas bem duro. O setor é ótimo para os dias mais ventosos, pois é protegido. Na volta conseguimos ainda uma carona!

Calamar

Mais um dia de tempo bom e fomos no "campo-escola" da cidade, onde escalamos uma sequencia de 9 vias esportivas fáceis bem rapidinho e fomos comer umas empanadas!!

Descansamos mais um dia, andando só de camiseta pela cidade, impressionante! Depois fomos aos preparativos pra próxima janela, registramo-nos no parque, meio burocrático, eles pedem um seguro de vida, coisa que não tínhamos, e no final das contas,m nos deram a liberação.

CAMINHADA PRO NIPONINO

Era dia 31 de janeiro e saímos de Chaltén rumo ao niponino novamente! Dessa vez subíamos leves, sem as cordas, as costuras e os equipos móveis, o Otto ainda deixou escondido lá em cima o saco de dormir e o isolante. Caminhamos por cerca de 6h até o niponino, pegando uma ventania bem forte no frecho final, com algumas rajadas que nos faziam ter que parar de caminhar e firmar os apoios no chão pra não sermos derrubados. Lá perto, descobrimos que por pouco nossos equipos não caíram na greta! Deixamos tudo escondido em sacos em baixo de umas pedrinhas, mas em cima do glaciar, ideia idiota, pois com os dias quentes o glaciar derreteu e já tinham uns buracos se abrindo no gelo perto dos equipos. Resgatamos tudo, e chegando no niponino tivemos uma surpresa, não havia ninguém lá, fato inédito nas nossas idas ao local. Achamos estranho, ficamos pensando que poderíamos ter sido enganados pela previsão, ou olhado errado...enfim, montamos a barraca no melhor lugar, fizemos a janta e fomos dormir, a escalada do dia seguinte estava de pé!

Niponino - Casa 2

ESCALADA DA VIA VOIE DES BÉNITIERS (6C A1 400m)

Acordamos mais uma vez às 3:30, comemos nossa aveia com café e saimos ás 4:20, ótimo horário pra sair andando no escuro e se perder, preferimos fazer assim. Depois de subir mais do que deveríamos e quase chegar na base da Medialuna, percebemos que estávamos muito alto, e fora do caminho pro Mocho, descemos então e encontramos o acesso aos slabs, passamos alguns trechos molhados, outros com verglass e chegamos na base da via por volta das 8:00.

Aproximação para El Mocho, a via que escalamos vai pro 
cume do pontão da esquerda.


Fotos de um postal, com croqui no verso!

A via segue pela face delgada da montanha, mas existe uma variante no início que facilita um pouco a escalada, além de livrar as enfiadas com rocha ruim. Começamos por aí, Otto tocou cerca de 100m fáceis até bater direto na P3, depois veio um 6b com uma rocha bem duvidosa, que nós achávamos que na verdade era a enfiada anterior, graduada em 6a, a escalada foi delicada mas sem maiores problemas. Depois guiei um terceiro grau e um 5+, achei que tinha parado no meio do 5+ devido ao arrasto da corda por ter emendado as duas enfiadas, puxei Otto, peguei mais algumas peças e toquei um lindo diedro, com entalamento de mão e um final de fenda larga fácil, cheguei no platô, puxei o Otto.

 No 5+, início do diedro!

 Parada depois do 5+

Já no 6b sem saber

Olhamos o croqui e a próxima enfiada, que seria dele, deveria ser o 6b, mas não estava batendo com o croqui, descobrimos então que na verdade já estávamos uma enfiada adiantados, e tínhamos acabado de escalar o tal do 6b achando que era um 5+ duro!

Pela primeira vez estávamos achando a via mais fácil do que no croqui, e algumas vezes estávamos mais na frente do que imaginávamos, que diria. No geral era só paulada! hahaha. Acho que a explicação é dada pelo fato de estarmos escalando só com uma mochila (que o segundo levava) com uma pluma e os tênis, já que o rapel era pela mesma via.

Sei que o Otto comemorou achando que tinha um 6b pela frente, mas depois que descobriu que na verdade seria o crux da via, um 7b+ (6c/A1 pra nós) fez cara de bravo e tocou pra cima!

Essa enfiada é bem bonita, vertical, de oposição sem descanso até o crux que dá o grau em livre (7b+) ou A1, que na verdade é um lance chave passando de uma fenda pra outra, onde tem um piton em cada uma delas, depois, mais alguns metros de oposição até o platô da P8.

Eu descansando no crux..hehehe

Toquei um 6a até o cume de um tótem, onde acaba a via Voie des Bénitiers, de lá até o cume, segue-se pelo traçado original da conquista do cume, fazendo as 4 últimas enfiadas, duas de sexto e duas de quinto da via Espolón Este. Concluímos tudo e ás 14:30 chegamos ao cume do Mocho, nosso terceiro cume da temporada, quarto nas agulhas de Chaltén! Contemplamos o visual por alguns minutos e descemos.

 6a estranho da Espolón Este

 5 bão pra chegar no cume!

 Cume!! Cerro Torre ao fundo

Nós na última parada!!

O rapel foi bem tranquilo, conseguimos rapelar quase tudo com apenas uma corda, chegamos de volta ao niponino às 7:30 bem cansados das pernas.

 Rapelandooo

 No mocho os rapéis são quase todos chiques...

...quase todos.

O niponino agora estava cheio, tinha gente que ia pra Chiaro di Luna, gente que estava voltando do Cerro Torre, e os dois dias seguintes prometiam ser bons! Nós tínhamos como plano inicial escalar a agulha La'S, pelo lado que estávamos, esse itinerário inclui uma caminhada de aproximadamente 6h, uma escalada de três enfiadas de 5 grau e mais umas 6h pra voltar pro camp. Devido ao cansaço acumulado demos por encerrada nossa temporada pelas agulhas de Chalén e voltamos pra cidade, caminhando em dois dias, bem lentamente, comendo toda a comida que restou e comemorando uma temporada de muita SUERTE!!!

DIAS EXTRAS

Ainda tínhamos alguns dias na cidade antes de voltar pro Brasil, escalamos uma via bem legal no Cerro Rosado com um vento que nos empurrava pra cima, fomos com o Bernardo e a Luciana em uma fissurinha de dedo bem dura em algum lugar no bosque, e no último dia, escalamos "La Nueva", no Paredón de Los Condores, uma via com cinco enfiadas curtas, com um crux de 7a bem estranho, e algumas passadas mistas bel legais!

Paredón de Los Cóndores visto da janela da barraca

Terminamos assim nossos 25 dias em El Chaltén, depois foram cerca de 30 horas de viagens até chegar em casa. Valeu DCC por mais essa expedição!! 

Próximo post vem com o vídeo da trip!

Boas escaladas!!!




segunda-feira, 2 de março de 2015

Medialuna - Chaltén 2015

DESCANSO E MUDANÇA

Após a chegada em Chaltén, caminhada pro polacos, escalada na Saint Exupéry, tudo relatado no post anterior, chegamos ao nosso 3° dia de janela, neste dia acordamos às 14h! Nosso único trabalho do dia foi, além de comer e dormir, desmontar acampamento em "polacos" e descer até o Niponino, onde montamos novamente a "carpa".

Niponino é um local de bivaque/acampamento mais centralizado, no meio do caminho pras vias das cadeias do lado do Torre e do Fitz, o nome é esse porquê ele não é nem (ni) Polacos (po), nem (ni) Noruegos (no, outro" camp avançado" pro rumo do Torre).

Nova casa - Niponino

MEDIALUNA - VIA RÚBIO Y AZUL (6C, 350m)

Acordamos no dia seguinte às 3:30, comemos um sanduíche que deixamos pronto na noite anterior com um pouco de café solúvel (esse foi feito na hora), a idéia era sair cedo pra ninguém entrar na nossa frente dessa vez, iniciamos a caminhada às 4h.

A boa notícia é que dessa vez não iríamos precisar de botas nem grampons, pois o acesso tinha só uma nevesinha tranquila que dava pra fazer de tênis. 

A caminhada que fizemos...se é que podemos usar esse nome, começou por uma moraina que foi ficando cada vez mais ingrime e cada vez com blocos de pedra maiores e mais medonhos, sabíamos que estávamos errados, mas no final ia dar certo. Passamos desse trecho que deve ter sido o mais perigoso e emocionante do dia inteiro e chegamos em um trecho mais plano, já amanhecendo, daí pra cima subimos uma sequência de slabs (rampas de pedra), até a neve pertinho da base da via. talvez teria sido melhor ter esperado o sol nascer pra enxergar por onde andar! Só na descida descobrimos que o caminho mais tranquilo era mais pra frente, e não passava nem na moraina suicida, nem nos slabs.

Amanhecendo

Slabs...

Medialuna!

Após o embaço todo da caminhada, começamos à escalar às 7:00 e logo chegou uma dupla de escaladoras na base da via. Otto começou na frente e tocamos revezando as três primeiras enfiadas, cotadas em 5 e 5+ em um diedro de fenda larga, que vai aumentando até virar chaminé, bem estranho, mas lá fomos. Chegamos então no tão falado 6b, me deparei com duas opções: uma fenda fina de dedo, a qual fugi logo ou um diedro de fenda larga pra escalar em oposição, meio molhadinho, ruim de proteger e começando em um platô, felizmente o lance era curto, coloquei umas duas peças, ensaiei, fui-não-fui, olhei pra cima de novo e fui, uma peça ruim mais pra cima, roubadinha básica e passei do crux, depois a enfiada segue bonita pra cima, sem aliviar muito, mas melhor um pouco pra proteger.

 Primeiras enfiadas

 Primeiras enfiadas

 Paradinha

Fina da enfiada de 6b

As escaladoras estavam na parada antes deste 6b quando perdemos contato visual, seguimos por duas enfiadas mais fáceis até o cume do primeiro pontão, desescalamos um pouco pro lado até achar a sequência das enfiadas seguintes. guiei um 5 impressionante, fissura de mão do começo ao fim, contínua, entalando mão e pé, tranquila, desfrute! Otto entrou na sequência no 6a menos amigável mas não menos impressionante, mesmo estilo, só que com as fissuras afinando no final. 

 Cerro Torre e seus vizinhos ao fundo, tão perto e tão longe!!

 Efeito do sol

Fissura de 6a antes de entrar na chaminé!

Essa hora o sol ardia, escalamos de segunda pele sentindo o pescoço fritar! Fiz mais uma enfiadinha em chaminé e entramos no "buraco", na verdade uma grande chaminé que funciona como um freezer, dentro dele está o crux, um  diedro vertical de 6c, oposição, fenda larga, quase toda em camalot #3, felizmente levamos um #4 também que salvou! Era a vez do Otto, que negociou com os camalots e umas fitas pros pés, e passou rápido por ali, tentei em livre e mesmo sem mochila ainda dei umas duas paradas pra descansar, mas a enfiada é linda!

Crux!

Depois mais uma fissurinha saindo por baixo de um tetinho pra esquerda e estamos quase no cume! Mais uma enfiada trepa pedra e cumre!!!!

Eram 16h, estávamos tranquilos, pudemos gastar um tempinho a mais nesse cume, mas sem muita enrolação, desescalamos a última enfiada e começamos os rapéis.



Cume!!!

O rapel é por uma linha um pouco diferente da escalada, seguimos o croqui do rapel do guia e no segundo rapel de 50m, a corda prendeu em um tótem lááá em cima, olhamos um pro outro, o Otto puxou com muita força e ela correu!! Mais umas puxadinhas e ela veio! Seguimos rapelando já não mais pelo rapel indicado no guia, que seria todo fixo, pois não achamos essas ancoragens, mas caímos naturalmente no diedro da via Gratton-Martorelo, que apesar de não serem as rarar ancoragens fixas, não ofereceu nenhum problema, seguimos descendo e no final vimos uma movimentação de gente pra lá e pra cá na base da via.

Rapelando...

Quando chegamos no chão descobrimos que uma das meninas se machucou ao cair no 6b do início, felizmente a parceira dela conseguiu descê-la e o pessoal que estava no niponino subiu pra ajudar na descida da trilha, ajudamos um pouco também na logística de "melhorar a moraina", limpando um pouco as pedras mais soltas e construindo uma "trilha" pra ela poder descer melhor. Eram mais de 20h quando chegamos no niponino de volta, e uma equipe de resgatistas voluntários de Chaltén já estava chegando para levá-la de volta à cidade da melhor forma possível.

Dormimos, um pouco pensativos, mas sabendo que tudo estava bem. Acordamos no dia seguinte com o tempo já começando a mudar, desmontamos acampamento, escondemos nossos equipos lá por cima, já pensando na próxima janela e descemos mais leves pra cidade, pegamos uma chuva bem chata e um ventinho na volta.

Chegando em Chaltén ouvimos muitas histórias de escaladas nesses cinco dias de janela!! Começamos então nosso período de engorda e escaladinhas pela cidade enquanto a próxima janela não vinha.

Continua...


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Aguja Saint Exupéry - Chaltén 2015

AS "JANELAS"

Aproximadamente um ano antes, fui com o Otto e o Cruel pela primeira vez ao lugar, e pudemos comprovar que o tempo por lá não é muito amigável. Relato aqui.

Estudando o guia...

Funciona mais ou menos assim: você fica monitorando diariamente sites de previsão do tempo e aguardando uma boa "janela", como são chamados os períodos de bom tempo, as tais janelas duram normalmente dois ou três dias no máximo, quando muito, cinco ou seis dias (raramente acontecem). 

Muitas coisas influenciam na sua "janela", ano passado abriam janelas de um ou dois dias, porém nos dias anteriores nevava muito, impossibilitando algumas escaladas. Basicamente três coisas devem se alinhar: temperatura, vento e precipitação. Em uma janela boa a temperatura pode passar dos 20°C, a precipitação zera e o vento para completamente! Nos diziam isso ano passado e era difícil de acreditar que dias assim existiam em Chaltén.

A PASSAGEM

Dezesseis de janeiro de 2015 foi a data escolhida, com meses de antecedência, para o início da minha segunda "temporada" em El Chaltén, Argentina. 

A ideia maluca de repetir a trip pelo segundo ano consecutivo foi do Otto, dessa vez 25 dias seriam suficientes pra escalar ou voltar pra casa injuriado.

Dias antes da partida estávamos de olho no windguru.com, e achamos estranho quando começou a aparecer uma sequência de dias perfeitos no fim da previsão, a janela foi se mostrando firme e não paravam de aparecer dias bons na sequência, chegamos a pensar que o site tava bugado, hahaha.

Pegamos o avião de Recife (eu) e Curitiba (Otto) pra Guarulhos, depois seguimos pra Buenos Aires, trocamos de aeroporto lá e pegamos o último vôo pra Calafate, chegamos lá já era dia 17/01, primeiro dia de tempo bom, segundo a previsão. De Calafate ainda seguimos de van até El Chaltén, onde finalmente chegamos apenas às 19h.

PREPARAÇÃO
Não pode ultrapassar o limite!!

Nos alojamos no camping El Refugio, compramos comida pra cinco dias, isso mesmo, teríamos cinco dias de tempo bom pela frente! O cardápio, que se mostrou muito interessante: Aveia no café da manhã, castanhas e frutas caras secas durante o dia e sopa de macarrão com algum salame/atum/queijo de noite. 

Mochila pra 5 dias!

Jantamos, e dormimos com a mochila pronta pra começar os trabalhos no dia seguinte.

APROXIMAÇÃO POLACOS

Dia 18 de janeiro, primeiro dia da janela pra nós, café da manhã reforçado, mochila nas costas e caminhada até o camp Polacos. O Polacos nada mais é do que uma pedra grande com um muro de pedras improvisado pra proteger a barraca (nós levamos uma) do vento. Ele fica entre as cadeias do Fitz Roy e do Cerro Torre, mais próximo das agulhas do lado do Fitz.

Pra chegar lá, a caminhada de aquecimento consiste em 10km até a Laguna Torre, esse trecho é em trilha batida e bem sinalizada, pois muitos turistas vão visitar a laguna e ver o cerro torre ao fundo. Depois que chega na laguna atravessa uma tirolesa e em mais alguns km começa a parte chata da trilha: as morainas! Mais 10km de pedregulho e cascalho, um glaciar pra atravessar, mais pedregulho e chega-se ao Niponino, um acampamento mais baixo e mais centralizado, depois mais 1h de pedregulho e chegamos ao destino. Foram quase dez horas de Chaltén a Polacos. Jantamos e dormimos, pensando no que viria pela frente no dia seguinte.


Após a tirolesa, passando ao lado da Laguna Torre

Final do Glaciar Torre (?) 

Fitz Roy, Desmochada, Poincenot e Rafael Juarez

"Polacos"

VIA CHIARO DI LUNA (6B+ 750m) - AGUJA SAINT EXUPÉRY

Durante a viagem ficamos olhando os croquis das nossas opções principais, mais amenas: Medialuna, Mocho, la'S, mas por algum motivo uma via nos chamava a atenção, a Chiaro de Luna, descrita no guia como uma via três estrelas, uma das melhores da área. Ficamos com ela na cabeça até que finalmente chegou a hora de escolher nosso rumo para a primeira tentativa, titubeamos um pouco, pensamos em talvez fazer uma via mais fácil na mesma agulha, mas acabamos decidindo arriscar essa escalada! Não teria outra escolha melhor!

Acordamos 3:30 e enquanto tomávamos nossa aveia com café, passam por nós um trio de americanos vindo do Niponino indo escalar a mesma via, engolimos o que faltava e seguimos na cola deles. Do acampamento não dá pra ver a montanha e um pouco de navegação é necessário pra achar o caminho até a base. Quanto mais próximo da via, mais fácil fica, pois o caminho perde inclinação e você passa a enxergar a base da montanha e da via, facilmente identificável pelo dique de basalto que corta a agulha inteira.
   
Poincenot, Rafael e Exupéry!

Saint Exupéry

No caminho...Cerro Torre ao fundo

 Em três horas (o dobro do indicado no guia) chegamos na base da via, na verdade já na P1, após a rampa de neve inicial, onde aguardamos o trio que estava na nossa frente sair pra podermos começar.

Finalmente começamos a escalar, cerca de 8:00, e comecei guiando o dique e o diedro da sequência, depois Otto tocou o crux da via, um diedro lindo de 6b+, bem duro, toquei um 6b mais amigável e depois escalamos lindas enfiadas de 5+ e um 6a+ estranho onde roubei feliz da vida, com mais um trecho bem positivo de uns 80m concluímos a primeira parte da via, o primeiro "pontão". Tínhamos escalado 9 enfiadas, de um total de 19, já estávamos cansados, mas mantínhamos um bom ritmo, uma certa preocupação com a hora nos fez pensar se o certo seria continuar ou não, como o tempo não ameaçava mudar, resolvemos seguir e assumir a possibilidade de um bivaque emergencial, mas continuamos seguindo e desfrutando muito da via!


 CRux! Final do 6b+

Descanso

Tocamos mais um trecho e encontramos os americanos na frente novamente, aguardamos um pouco e seguimos, não tínhamos velocidade para ultrapassá-los, mas eles também não iam tão rápido pra se distanciar de nós, então ficou aquele embaço de leve...de vez em quando dávamos uma esperadinha nas paradas. Apesar desta demora, eles acabaram nos dando mais confiança para continuar nosso looongo dia de escalada. Passamos pela última enfiada de dificuldade da via, um 6b lindo, que começava fácil e ia piorando, até chegar numa oposição de pés chapados protegida com microfriends, na qual claro, tive que "agilizar" (bonita palavra né...). Pra cima só algumas enfiadas de 5+ de chaminé, três americanos, e o cume! Deixamos as mochilas na parada (daí pra baixo o rapel segue por outra linha, diferente da via) e partimos pro sprint final, as chaminés são um pouco chatas, mas seguimos para o cume, onde chegamos às 20:00, com sol (dias longos, a única coisa garantida no verão patagônico), batemos umas duas fotos, demos um 360° e começamos a descer, acho que não passamos nem 5 minutos por lá, o caminho era longo pra baixo!

 Décima enfiada

 Cume

 Cume, Chaltén ao fundo.

Cume, Poincenot ao fundo!

Rapelamos as chaminés, depois pegamos a sequência de rapéis que não passa por nenhuma via, uma linha mias direta até alcançar novamente a via Kearing Haryngton, depois mais alguns rapéis chegam já na rampa de neve, lá pelas 23h. Essa linha de rapel é bem mais rápida, curta e direta do que rapelar a própria via, entretanto, por não ser uma via de escalada, se a corda prender o bixo pega! Felizmente a corda não prendeu nenhuma vez, e quanto a última corda do último rapel  caiu no chão até os americanos comemoraram, gente boa esses três malucos, desceram bem rápido até o Niponino, e nós bem devagar, bem devagar mesmo, até o Polacos. 

Finalizamos nosso longo dia às 3:00 no polacos, após cerca de 23h de atividade, jantei um copo de sopa de macarrão muito gentilmente preparado pelo Otto e dormi profundamente até o dia seguinte às 14h.

Que via!!! Que escalada!! Que lugar!! Que cansaço!!! =D

Pra quem quiser dar uma olhada no traçado da via, acesse PATACLIMB.com

Continua...