terça-feira, 13 de junho de 2017

Agulha do Diabo - Serra dos Órgãos/RJ

Sexta-feira, 19/06 às 16h saí do trabalho em Feira de Santana e dirigi 100 km até o aeroporto de Salvador, de lá peguei um voo às 21h pro Rio de Janeiro, onde cheguei às 23h. Lá encontrei o Otto, que tinha chegado meia hora antes de Curitiba, e fomos resgatados pelo Júlio "Francês" e pelo Filipe, seguindo de carro direto pra entrada do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, onde chegamos por volta da 1h da manhã. Jantamos miojo e dormimos.

Vinhamos monitorando a previsão do tempo há uma semana, e não tava lá essas coisas. Na sexta choveu o dia todo na cidade do Rio, e segundo informações, também em Teresópolis próximo à entrada do parque. Ou seja, a via estaria molhada, mas será que seria possível subir, mesmo usando todos os "artifícios"? Discutimos as possibilidades via wathsapp enquanto não nos encontrávamos pessoalmente e, cogitamos mudar o destino para Passa Vinte, pra escalar esportivas. Mas mudar o foco tão radicalmente após criar toda uma expectativa em torno da Agulha do Diabo não seria fácil, e não aconteceu. Os quatro malucos pagaram pra ver e assumiram a possibilidade de chegar na base da via após no mínimo 4h de caminhada e ter que dar meia volta. Mas claro, na nossa cabeça, a via iria estar molhada, mas daria pra "roubar" até o lance da unha, que na minha mente estaria seco, por ser na parte superior da agulha e receber muito vento. A previsão para o dia da escalada era de pouca chuva no fim de tarde, quando planejávamos já estar no chão novamente.

Às quatro da manhã do dia 20/06 acordamos e tomamos café, começando a caminhar por volta das 5h sob uma garoa leve que caiu a noite toda. Subimos a longa e sinuosa trilha da Pedra do Sino até a chamada cota 2000, pegando então o Caminho das Orquídeas, quando a trilha deixa a principal e segue bem estreita, porém bem marcada até o mirante. O ritmo foi bom e paramos somente quando chegamos no mirante do inferno, de onde finalmente vimos a Agulha do Diabo, isolada, de frente! Lanchamos, descansamos um pouco, tiramos algumas fotos e começamos a descida ingrime do grotão, pra  depois subir até o início da via, onde chegamos após exatas 4h de caminhada a partir do estacionamento.

 Início da caminhada

 Verruga do Frade

Filipe, Júlio e Otto

Agulha do Diabo vista do Mirante do Inferno

Bom, constatamos o óbvio, a primeira enfiada estava encharcada, cem por cento. Antes mesmo de olharmos um pro outro com aquela cara de apreensão, pra saber que iria guiar, o Otto diz: "A primeira é minha!", e ninguém contestou. Olhando de baixo tinham alguns grampos, e aparentava caber peças na fenda pra ajudar. levamos dois camalots para as duas duplas (#1 e 2). Otto disse que não ia fazer diferença ir de tênis ou de sapatilha e começou com seu calçado de caminhada mesmo. Um grampo aqui, um camalot aí, pisa aqui, puxa ali, patina aqui, escorrega ali e ele chegou na P1 rapidamente, dadas as condições. 

Otto na primeira enfiada

Nossa ideia inicial era escalar a via em duas duplas, mas chegando na base vimos que não fazia sentido duas pessoas terem que passar pelo perrengue de guiar a mesma enfiada molhada, então montamos uma cordada de quatro pessoas! Como tínhamos um par de corda dupla, fluiu bem: O guia subia com uma corda dobrada, chegando em cima ele puxava dois participantes, quando chegavam, um deles dava seg pro guia na próxima enfiada e o outro pro 4º elemento, que vinha de baixo com a outra corda dobrada.

Seguimos assim pela segunda enfiada, uma diagonal mais fácil, e também na terceira, que tem uma fenda larga com umas agarras dentro, depois um lance segurando em uma raiz pra finalizar em outra diagonal com uma desescalada meio tensa de fazer no molhado. Duas enfiadas fáceis, meio trepa-mato meio caminhada mesmo levam à Chaminé do L, uma verdadeira geladeira dentro da Agulha! Claro, estava completamente molhada, assim como todas as outras enfiadas até então. 

Otto na terceira enfiada

Otto subiu pela chaminé molhada, passou pelo buraco, seguiu pelos blocos passando por cima das nossas cabeças e emendou com a próxima enfiada, um domínio estranho de um bloco até alcançar o grampo pra se puxar. Eu já estava tremendo dentro da geladeira. Como ele juntou duas enfiadas, uma das cordas prendeu, subi primeiro dando sucessivos nós pra diminuir a barriga da corda que ele não conseguia recolher, liberei a corda e chegamos a P7, no platô de mato grande e confortável, onde pegamos alguns raios de sol muito agradáveis!

Chaminé do L

Até aqui subimos os quatro de tênis, e tudo estava totalmente encharcado. Mas até então não tinha nenhum lance obrigatório muito difícil, e as próximas enfiadas diriam se chegaríamos ao cume dessa vez ou não.

Encontramos o famoso "lance do cavalinho" completamente seco! Ficamos bem entusiasmados, as chances da chaminé seguinte estar seca eram maiores. Calçamos a sapatilha e começamos de fato à escalar. Passei o lance, que achei bem divertido, entrando na chaminé chamada "chaminé da unha", pois é uma grande laca de rocha encostada na montanha, completamente solta, apoiada em uma pequena área, e por lá que segue a via.


Lance do Cavalinho

A chaminé estava úmida, babadinha, comecei a subir em direção ao primeiro grampo, meio desconfortável, ele estava mais longe do que parecia, me estiquei pro lado e costurei. Olhei pro segundo grampo e ele estava também bem longe, segui subindo pela chaminé, lentamente, e parece que a chaminé vai ficando mais aberta, até que chega-se à um pequeno platô, onde dá pra respirar e costurar. Se o primeiro e o segundo estavam longe, o terceiro estava na lá na PQP! Pensei duas vezes, três vezes, pensei em dar seg dali mesmo e tentar achar outro voluntário pra guiar aquele trecho babado, mas resolvi testar, subi um pouco e vi que dava pra ir relativamente bem encaixado, fazendo pressão o tempo todo com o pé alto, diminuindo a possibilidade de escorregar. Não seria nada bonito uma escalada de pé ali, cheguei no grampo com câimbra na perna, costurei, alonguei e continuei mais um pouco até chegar na alça do cabo de aço que tem no final da unha, tendo a certeza de que o cume estava ganho!

Júlio na chaminé da unha

Puxei os parceiros e seguimos pelo cabo-de-aço até o cume, onde encontramos tudo branco! Não deu pra ver nada em volta, mas estávamos lá! Foi divertido, sofrido, deu medinho, mas como a vontade era grande, e a oportunidade única, deu tudo certo!

Chegamos ao cume se não me engano pouco depois do meio dia, ficamos um tempo lá em cima e começamos a descer, os rapéis são bem tranquilos e não são muitos, então pouco depois das 13h estávamos na base, arrumando as mochilas e começando a interminável caminhada de volta.

Cauí, Otto, Júlio e Filipe no cume!

Rapidamente fizemos o grotão de volta e o caminho das orquídeas, chegando na trilha principal, que vem do Sino e leva ao estacionamento da entrada do PARNASO, essa trilha de volta é infinita, andamos até não aguentar mais e chegamos pouco depois das 16h de volta ao estacionamento, após 3h de caminhada que pareceram ao menos umas 12h.

Lanchamos ali mesmo e voltamos pro Rio. Nossa passagem de volta era no domingo de noite, e eu pensei que domingo seria dia de descanso, mas Júlio acordou cantarolando e arrumando a mochila pra procurar algum lugar seco na cidade pra escalar! Fomos pro CE2000, que estava babado, o que não nos animou, terminamos no Platô da Lagoa, onde fizemos uma forcinha pra terminar o fim de semana!

 Otto na Cristal Mágico

Júlio na Ramos

Agora é só deixar o tempo nos fazer esquecer os perrengues pra procurar alguma encrenca nova por aí.

Usamos o novo livro do Daflon, 50 vias clássicas no Brasil, pra nos guiar (além do Filipe, que já tinha escalado a via), as referências estão ótimas no livro. Só não leve ele na mochila, claro.

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