domingo, 6 de janeiro de 2019

Trip Peru #2 - Via Del 85 - La Esfinge

Oito dias após desembarcarmos no Peru, em junho de 2018, tiramos nosso primeiro dia de descanso total, em um hostel em Huaraz. A semana anterior foi de escalada/aclimatação nas belas vias esportivas de Hatun Machay (link pro relato), onde passamos frio e sentimos os efeitos da altitude no corpo pela primeira vez.

O parceiro desta empreitada foi o curitibano Otto, companheiro de cordada em outras roubadas semelhantes. Aproveitamos nosso dia de descanso para comer bem, coletar informações e planejar o dia seguinte. A ideia era tentar subir alguma montanha com 5mil metros de altitud
  
e, para aclimatar melhor e chegar com mais fôlego no nosso objetivo principal da trip: La Esfinge (5325m). Como o tempo era curto, seguimos a sugestão de tentar subir o Rima Rima, uma montanha visível da cidade de Huaraz, com pouco mais de 5 mil metros de altitude, que seria factível em um dia. Segundo nosso informante, a caminhada seria de cerca de 5h ida e volta, com um trecho final de escalada fácil. Pegamos as dicas sobre o acesso, e fomos dormir, pra tentar subir o Rima Rima e voltar pro hostel no dia seguinte.

Acordamos cedo e pegamos um taxi, que rodou 20km e nos deixou no ponto da estrada por onde começava a caminhada, a cerca de 4000m. Andamos muito devagar, parando muito e nos sentindo muito cansados, cinco horas depois chegamos a 4900m, ainda faltava muito, e pelo cansaço e pela hora, resolvemos descer dali mesmo. Foram 2h de volta ao ponto de de onde começamos, mais 7km até encontrar uma van, que nos levou de volta à cidade. Não fizemos cume, nem ultrapassamos os 5 mil, que seria bom pra aclimatação, fiamos um pouco preocupados com nosso desempenho aquém do esperado, mas seguimos com nosso objetivo principal.

Rima Rima é a pirâmide preta no primeiro plano


Nossa altitude máxima no Rima Rima

O dia seguinte foi de descanso em Huaraz, fizemos compras e coletamos  informações sobre o transporte até a Esfinge. Dia 14 de junho de 2018 saímos do Hostel Big Mountain e tomamos um ônibus pra cidade de Caraz [7 soles/2h/60km], chegamos às 8h, andamos até o mercado e pegamos um taxi [85 soles/1h30] que nos levou à Laguna Paron, ponto inicial da caminhada. Paga-se uma taxa de entrada de 5 soles, e essa estrada que percorremos de taxi é impressionante, ela sobe por um vale cercado de paredes que facilmente chegam a 1000m de puro granito. A Laguna Parón também impressiona por sua beleza. Começamos a caminhar rumo à Esfinge às 9h40, chegando ao local usado por muitos como acampamento base após 4h de caminhada, ficamos muito felizes, pois esse é o tempo médio estimado pelo Guia de Escalada de Huaraz, afinal não estávamos tão mal assim! Coletamos água, armamos uma barraca que usaríamos caso o bivak (cova protegida do vento a 15min da base da via) estivesse lotado, o que não foi necessário. Mais uma hora de caminhada e chegamos à tal cova, que estava vazia! Levamos os equipamentos pra base da via, e voltamos pra jantar e dormir. Pra essa caminhada fui com o meu Five Ten Guide, tênis que levei na mochila durante a escalada, pois a descida é por um caminho diferente, ele foi uma boa pedida, pois combina conforto/precisão com leveza.


Início da Caminhada

Primeira vista da Esfinge!!

Dia 15 acordamos 4h30 da manhã, após uma noite até que bem agradável, a 4700m de altitude, tomamos um café e antes das 5h30 estávamos na base da via, começamos a escalar pouco antes das 6h, ainda no escuro, com a luz das headlamps. A rota escolhida foi a Via Del 85, a rota "Normal" da montanha, são cerca de 750m de puro granito, graduada em 6a, com crux's de 6c (graduação francesa), que podem ser feitos em A1. Seu cume está a 5.325m em relação ao nível do mar.

Bivaque

 Escalamos com uma corda simples de 80m, e levamos um cordelete de 60m na mochila, apenas pro rapel. Levamos água, tênis, anorak e começamos a escalar vestidos com a pluma e luvas. Optamos por não levar nada para bivak, o que nos deixaria mais rápidos, mas se algo desse errado, estaríamos numa fria. Escalei com a Moccasym, um número maior que meu é, com meias grossas, precisão necessária e conforto pra ficar 1 dia inteiro calçado.

Otto na segunda enfiada

Emendei as duas primeiras enfiadas, relativamente fáceis, não cabem muitas peças nesse trecho, mas existem alguns pitons, inclusive ao longo te toda a primeira metade da via. Otto pegou as próximas duas enfiadas, também em uma tacada só, depois eu emendei até a P6, santa corda de 80m! Outro detalhe técnico que nos permitiu fazer isso foi termos levado 2 jogos de camalots, em vez de 1, como recomendado em muitos relatos de quem escala a via em um dia. Levamos também o #4, que não me arrependo, e claro, os micros.



A sétima enfiada foi do Otto, e pareceu a mais dura e constante da via, e a partir dela, seguimos de uma em uma enfiada, até o Platô das Flores. Este platô é usado como local de bivak pra quem opta por fazer a via em dois dias, ele divide duas partes da via, a primeira, de maior dificuldade, porém bem óbvia quanto à navegação, e a segunda parte, mais fácil, porém com diversas possibilidades de caminhos a seguir. Chegamos ao Platô às 11h15, um bom horário pra um dia de escalada, mas já nos sentíamos super cansados. Lanchamos, bebemos um pouco de água e guiei o lindo diedro depois do platô, daí pra cima fomos nos arrastando, e nos mantendo relativamente bem na navegação. Sò nos perdemos lá pela 15ª enfiada, mas "descobrimos" nosso caminho e, às 17h e 45 minutos, chegamos ao cume! Tiramos algumas fotos que ficaram bem ruins, mas são o registro de um objetivo alcançado com muito planejamento, estudo e acima de tudo, vontade! Nosso primeiro 5 mil, La Esfinge, Cordilleira Blanca, Peru.






Caminhamos pela crista da montanha, por cima dos blocos, rumo à via de rapel, que fica na parte mais baixa da parede, e está sinalizada com totens apenas no ponto de rapel mesmo, então pode caminhar com fé, que ela está lá! São três rapéis ao todo: 60m/30m/60m, praticamente em linha reta, e todos os pontos de ancoragem estão em bom estado. Ao final do terceiro rapel, descer caminhando meio em diagonal pra esquerda, até acessar a moraina, que leva ao ponto de bivak. Terminamos o rapel às 19h e descemos cambaleando pela moraina até a cova, onde chegamos às 20h20, jantamos e dormimos, pra no dia seguinte voltar pra civilização e depois pra casa.

 Cume da Esfinge (5300m)

Aclimatação sem dúvida deixou a desejar, 10 dias foi insuficiente, não chegamos nem perto de escalar com nossa capacidade normal, mas foi como deu pra fazer, respeito aos montanhistas de grandes altitudes, deu pra sentir na pele e nos pulmões o quanto é difícil! Que esse relato sirva de inspiração pra quem quer escalar a Esfinge, ou qualquer montanha por aí! Caso alguém precise de alguma informação específica, não deixe de entrar em contato: cauivc@gmail.com

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Novas Vias em Itatim - BA

Já faz quase 02 anos que estou na Bahia e sigo dando prioridade a escalar em vez de conquistar, são muitas vias novas pra mim, de todos os estilos, então após mais de 10 anos abrindo vias quase sempre em Pernambuco, to meio devagar nesse quesito por aqui, apesar de não faltar opções icríveis de linhas pra abrir.
Mas nem só de escalar vias prontas vive o homem, e vez ou outra acabamos abrindo uma ou outra via. Já postei aqui o relato da conquista da Tudo Passa, no Morro do Enxadão, mas faltou registrar aqui no blog algumas vias que foram abertas nesse meio tempo.

SETOR RUPESTRE

Na base do Morro do Crocodilo existe um bloco de aproximadamente 15m onde o Marcelo (Itatim) e o Emerson (SE) abriram algumas vias fixas, fui com o Marcel em abril de 2017 conhecer as vias e deixamos mais duas opções pro setor: 
- Do Inferno a Paraíso (Vsup) - Quase toda em móvel, exceto por uma chapa no início e parada dupla no topo. É a via mais à esquerda do setor.
- Coisas Laterais (7a) - Fixa, é a via da direita.

Coisas Laterais - Foto: Marcel Gama

JARARACA

Abri com o Marcel e o Vitor Wolmer a continuação reto da "Mulambo Atrevido", que foi nomeada de "Desvio de Função" (8a), pois no dia fomos pro setor trocar algumas chapas podres e acabamos fazendo outra coisa.
Em duas ou três investidas em agosto e setembro de 2017 regrampeamos algumas vias no setor, pois a situação das proteções estava bem feia. Ainda restam muitas vias pra serem regrampeadas, mas as que estão perfeitas pra escalar são as seguintes:
- Desvio de Função (8a)
- Mulambo Atrevido (VIsup)
- Mimi Jando (7a)
- Los Vagabundos (7b)

Chapa substituída

Regrampeando a Los Vagabundos 

Conquistando a Desvio de Função

MORRO DA FONTE

Plutão (5º VIIc E2 D1) 135m

Conquistamos uma interessante via de cume no Morro da Fonte, acredito que seja a mais dura das que vão ao cume. Juan, Marcel e Bruno foram os pareiros das três investidas necessárias pra concluir a via, principalmente devido à furadeira já não mais aguentar fazer muitos furos.
A primeira enfiada é um VIIb fixo, com crux no início (melhor pré-clipar a primeira proteção), passando por um tetinho e seguindo em agarras pequenas até a P1. Depos uma enfiada de V com uma chapa e algumas peças, mais duas enfiadas mistas no positivo até chegar na base da última enfiada: um 7c vertical com lances de oposição e regletes, infelizmente a fenda que proporciona algumas agarras, não aceitava bem as peças, e a enfiada ficou fixa, mas não diminui a beleza da via. 



Cauí na P1 e Marcel na segunda enfiada 

Última enfiada

MORRO DO TALHADO

Mistério da Bateria (4º VIsup E3) 235m

O Talhado possuia apenas uma via de cume, a qual ainda não tive oportunidade de entrar, chamada Seu Vavá, a via tem lances de artificial exigentes e não deve ser repetida em pouas horas, sendo assim resolvemos abrir uma via mais amigável por lá.
Escolhemos uma linha à esquerda das vias do Chiquinho, onde parecia ter uma chaminé. Quando chegamos vimos que a chaminé tinha uma parada dupla no final, então optmos por começar mais pela esquerda, escalando pelas agarras. Batemos alumas chapas, colocamos algumas peças e quando chego à um platô vejo uma chapa, aproveitei e parei nela, depois vi que pertencia à mesma linha da chaminé que vimos na base, felizmente vinhamos também em móvel e não alteramos nada da via existente. Como não viamos nenhuma chapa pra cima, e a bateria já dava sinais de fraquesa, tivemos que seguir sem bater nada até a parada, que puxei pra esquerda pra fugir da linha existente, no final de super certo, e chegamos no primeiro grande platô de mato. Abrimos um caminho pelo mato até encontrar a pedra novamente, e comecei a escalar sabendo que a furadera mal ia fazer mais um furo, consegui subirr por uma canaleta onde couberam duas peças, depois por um diedro onde entraram mais duas ou três peças. No final do diedro fiquei em uma rampa onde comecei um furo com a furadeira e terminei batendo direto na broca.
Na investida seguinte nós subimos mais 30m até o segundo grande platô de mato, por onde caminhamos, dessa vez de tênis, em meio à espinhos e bromélias até chegar na rocha novamente, o últio trecho estava escorrendo água, mas a única parte seca era a linha que tinha cara de ter mais agarras! Conquistamos então a última enfiada, com chapas e duas peças, por volta de VIsup, o crux da via.
Voltamos mais uma vez pra duplicar as paradas e repetir a via ao lado pra ver se realmente não tínhamos interferido, felizmente não, até chegamos a relocar uma chapa da nossa via, pois a pesar de não interferir, estava visível da outra via.






Vermelho: Mistério da Bateria / Amarelo: Por Deus, Não Chape

14: Mistério da Bateria / 13: Por Deus, Não Chape


DEPARTAMENTO

- Bolsa de Valores (VIsup) - Fixa, 30m.

MORRO DO ENXADÃO

Concluí um antigo projeto do Filipe, faltava apenas a parada, visinho à Piratas do Caribe:

- Mão Leve (8a) - Fixa.


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